Gay sim, religioso... também!


Negando-se a abrir mão de sua sexualidade, homossexuais em todo o Brasil se organizam para praticar a fé e tentar mostrar que o amor a Deus supera qualquer barreira.

Igreja Cristã Contemporânea, no bairro do Tatuapé, São Paulo.
Foto: Paulo Dias
Até bem pouco tempo atrás, as palavras homossexualidade e religião caminhavam em direções opostas. Qualquer um que não se encaixasse no padrão “habitual” de sexualidade, não tinha muitas opções se quisesse praticar sua fé dentro de uma igreja dita tradicional pois todos os caminhos guiavam para um mesmo destino: abrir mão de sua sexualidade e ser aceito no grupo ou não abrir mão e não ser aceito. Hoje, apesar de toda a polêmica que ainda permeia o assunto, os destinos no final deste caminho parecem ter se pluralizado. Por um lado, organizações tradicionais como a Igreja Católica sinalizam aos poucos uma mudança de posição sobre esse assunto; por outro, organizações independentes acolhem essa parcela da população e propõem um novo olhar a respeito do tema. Assuntos hora conflitantes parecem estar buscando maneiras de se encontrar. Gay sim, religioso... também.

“Uma igreja sem preconceitos”
A entrevista com o Pastor Jairo Lippi estava marcada para as 20h, mas o erro de cálculo no trajeto me fez chegar às portas da Igreja Cristã Contemporânea (ICC), no Tatuapé, cerca de meia hora mais cedo. Fundada pelo pastor Marcos Gladstone no Rio de Janeiro, em 10 de Setembro de 2006, a ICC chegou a São Paulo em 27 de março de 2013.  O amplo salão tem cerca de 120 cadeiras enfileiradas em dois blocos com um corredor no meio que dá para o palco ao fundo. Tudo remete a uma igreja evangélica comum. Mas uma mensagem estampada nas camisetas de alguns membros logo sugere o que difere aquela igreja das demais: “Uma igreja sem preconceitos.”

 Ainda na porta, uma garota que aparenta não ter mais que 18 anos se aproxima e pergunta tímida: “essa é a entrada?”. Ao receber a confirmação, atravessa a porta rumo a uma cadeira nos fundos do salão. Sem dar mais detalhes, apenas disse que seu nome era Suelen e era sua primeira vez ali. “Pessoas que ouvem falar do local e entram para conhecer são bastante comuns”, informa Edivaldo de Lima, diácono da igreja.

Pastor Jairo ligou dizendo que enfrentava problemas pessoais e chegaria atrasado. Era o momento oportuno para adentrar as portas da Contemporânea e conhecer um pouco mais sobre algumas pessoas que ali estavam. Se por um lado as informações cedidas pelo pastor posteriormente poderiam tornar as entrevistas mais jornalísticas, por outro, o olhar quase leigo sobre o local proporcionaria uma experiência mais desprovida de análise. O foco inicial passou a ser conhecer o lugar e as pessoas e não o fato de estar numa igreja voltada a homossexuais.

Numa das primeiras fileiras do local, um casal de jovens mulheres se abraçava e faziam carinho uma na outra: Carla dos Santos, 22 anos e Vanessa Soares, 19 anos. Juntas há três anos e frequentadoras da igreja a cerca de um mês. Quando perguntado se gostariam de falar, Vanessa logo diz que Carla falaria pelas duas. O caminho que levou Carla e Vanessa a frequentar a ICC é o mesmo da maioria dos outros membros, conforme iria descobrir mais tarde ao conversar com Pastor Jairo. Carla conta
Vanessa (à esquerda) e Carla. Foto: Paulo Dias
que o desejo de frequentar uma igreja sempre foi muito forte, mas que nenhuma das duas se sentia à vontade em igrejas convencionais por não serem aceitas como são. “De início, íamos à igreja que minha sogra frequenta, só que lá não podíamos ficar à vontade nem demostrar que estávamos juntas, porque sempre que tentávamos fazer isso as pessoas começavam a olhar e comentar. Aí resolvemos sair de lá e eu disse para a Vanessa: vamos procurar uma igreja que nos aceite assim. Foi aí que lembrei que havia recebido um folheto da ICC na parada gay; Procurei o endereço na internet e encontrei o local. Visitamos pela primeira vez há um mês, gostamos do lugar e desde então frequentamos sempre”, narra Carla.

Casais gays são uma parcela grande do público da ICC. Para atender esse público, foi criado um ministério de casais, espécie de departamento para o aconselhamento dos casais. Eliane Mendes, 27 anos, é auxiliar administrativa no dia-a-dia, mas na ICC é responsável pela tarefa de aconselhar os casais. Por que ela? “Acredito que seja porque a igreja busca para esse posto alguém que tenha um casamento referencial, e eles enxergam em mim e em minha esposa Aline um relacionamento referencial. Estamos juntas a oito anos e casadas a quatro”, responde ela.

Para compreender melhor o trabalho de Eliane, é preciso entender que a formação familiar visando o casamento, independentemente de sexualidade, também é pregada pela ICC. O próprio fundador, Pastor Marcos, é casado há cerca de cinco anos com seu parceiro, o também pastor da ICC, Fábio Inácio. “Assim como em outras religiões, na ICC acreditamos que o casamento é pra sempre. Não existe casamento feito para se separar depois. Nesse sentido, o objetivo do aconselhamento de casados é mostrar que sempre existe uma chance, um outro caminho, tudo isso para que o casamento não venha a se desfazer”, conta Eliane.

Aline Lopes, 28 anos, companheira de Eliane entra na sala e avisa que o culto está prestes a começar. Eliane levanta e me conduz até o salão principal, convidando para assistir ao culto. Pastor Jairo ainda não havia chego.

O culto inicia com uma oração de cerca de dez minutos. O salão, ainda relativamente vazio, silencia-se para ouvir o Pastor Auxiliar Leandro Rodrigues proferir a oração. Ao fundo do palco, uma projeção na parede branca instrui sobre o tema do culto: “Batalha Espiritual”.  Após a oração, seguem-se alguns minutos de música, à medida que o salão vai enchendo o coro de vozes fica mais alto. Passada cerca de uma hora do início do culto, Pastor Jairo chega, passa pelo salão principal, cumprimentando alguns fiéis, se dirige até mim sorrindo, se desculpa pelo atraso e me conduz até sua sala.

Pastor Jairo Lippi consultando o livro "A Bíblia sem Preconceitos".
Foto: Paulo Dias
Jairo Lippi é professor e tem 33 anos, “idade de Cristo”, conforme ele mesmo diz. Frequenta a ICC Paulista desde sua fundação e é pastor há um ano e meio. Fazer parte da organização de uma igreja evangélica voltada para gays não é fácil, conforme ele narra “No começo foi ainda mais difícil; Já ouvi pessoas dizerem que a ICC é uma igreja do diabo, que é anticristo e coisas do tipo. Mas eu sempre fui muito determinado, a partir do momento que eu tenho minha crença a opinião dos outros não importa”.

Ao ouvir a pergunta que talvez seja a mais importante da entrevista, a respeito de como a ICC encara a forma como a homossexualidade é tratada na Bíblia, o pastor levanta-se, vai até seu armário e retira um exemplar do livro: “A Bíblia sem preconceitos”, publicação escrita por Marcos Gladstone e principal livro da ICC usada para explicar os versículos da Bíblia que supostamente condenariam a homossexualidade (ver quadro ao lado). Pastor Jairo explica que tudo o que é necessário para explicar a visão da ICC sobre o assunto está no livro, e conclui: “Nós acreditamos no amor de Deus acima de tudo, pregamos o amor de Deus a todos, sem preconceito. O que acontece é que, referente aos originais da Bíblia, tanto no Grego quanto no Hebraico, existem interpretações errôneas e o livro visa corrigir esses erros de interpretação e tradução”.

É claro que o argumento de que a Bíblia tem erros de interpretação ao tratar da homossexualidade é bastante polêmico e não é aceito por todos, principalmente por outros religiosos. A respeito do debate que o assunto gera, Pastor Jairo esclarece: “muita gente já vem com uma opinião formada, e uma coisa é você vir questionar por questionar e outra é você estar aberto a ouvir novas opiniões. O nosso propósito não é causar atrito, nem provocar debate, por isso converso à luz da Bíblia e com o auxílio do livro A Bíblia sem Preconceito, mas se eu vejo que a pessoa não está realmente disposta a ouvir, nem insisto”.

Sem outras interpretações
O farmacêutico Roberto Arrébola, de 52 anos, é um homem calmo e de voz tranquila. É pastor há 20 anos na Igreja Assembleia de Deus, maior religião evangélica protestante do Brasil, com cerca de 12 milhões de membros, segundo dados de 2008 da Fundação Getúlio Vargas. Ele já está acostumado a falar sobre o assunto “homossexualidade e religião” e discorda que há interpretações errôneas da Bíblia. “Acredito plenamente que a Bíblia é a Palavra de Deus da maneira como está e de forma alguma pode ser encarada com particular interpretação”, explica.

Pastor Roberto admite que a tendência à homossexualidade exista, e esclarece que o pecado está em ceder a isso. “A Bíblia condena a prática, não a tendência. A partir do momento que a pessoa reconhece e aceita Jesus ela já é cristã e é aos poucos ela vai deixando pra trás vícios e pecados. Não tem como ser em um passe de mágica, é um processo que envolve esforço e fé.”

A opinião de Pastor Roberto reflete a de grande parcela dos evangélicos e só mostra o quão distante esse assunto está de um consenso. Mas não é só entre evangélicos que o tema rende. O catolicismo, uma das maiores religiões do planeta, também está debatendo o assunto.

Mudanças à vista?
De acordo com o IBGE, com cerca de 123 milhões de fiéis no Brasil, e mais de 1,2 bilhão no mundo, a Igreja Católica Apostólica Romana é uma das maiores organizações religiosas do planeta e também do nosso país. O catolicismo sempre foi uma doutrina conservadora, por vezes até ultraconservadora. Mas a chegada do argentino Jorge Mario Bergoglio, ou simplesmente Papa Francisco, ao comando da organização em 2013 acendeu uma luz rumo a possíveis mudanças.

O primeiro sinal dessas possíveis mudanças, inclusive a respeito de como a igreja encara os homossexuais e a homossexualidade foi uma entrevista dada pelo Papa Francisco à jornalista Ilze Scamparini, do programa de televisão Fantástico, da rede Globo, em 27 de Julho de 2013, quando declarou: “Se uma pessoa é gay e procura Jesus, e tem boa vontade, quem sou eu para julgá-la? O catecismo diz que não se deve marginalizar essas pessoas, devem ser integradas à sociedade. Devemos ser irmãos.”

A declaração gerou repercussão imediata e desde então levou a Igreja à sempre colocar o assunto em sua pauta. Recentemente, uma reunião de cerca de 200 bispos católicos de todo o mundo deu o que falar. O primeiro relatório da reunião defendia uma atitude de aceitação em relação aos fiéis gays, porém, o relatório final divulgado dias depois apagou essa passagem do texto. Mais uma atitude que mostra o quanto o assunto ainda gera divisão dentro da igreja e está longe de ter solução.

Enquanto aguardam boas novas, milhares de homossexuais católicos são sabem ao certo o que fazer. Porém, uma parcela desse total decidiu que precisa se unir, mesmo não tendo aceitação por parte da cúpula – e de muitos membros - da Igreja Católica. É o caso do Diversidade Católica, grupo de homossexuais católicos criado no Rio de Janeiro, em 2006, e que se espalhou por diversas cidades de todo o Brasil.

O grupo não tem divisão hierárquica e as reuniões não tem local fixo para acontecer, conforme explica Cristiana Serra, uma das organizadoras do Diversidade.

Cristiana é uma carioca de 40 anos, psicóloga e homossexual assumida, conheceu o Diversidade Católica em 2008. Nas reuniões mensais do grupo, procura debater temas relacionados à religião e também a sociedade na qual está inserida, pois acredita que os dois temas estão diretamente ligados. A respeito do futuro da Igreja, declara: “a Igreja, assim como a sociedade, é uma organização social extremamente complexa, que só sobreviveu a 2 mil anos de história porque, assim como existem as forças conservadoras que resistem à mudança, existem também as forças da abertura, da transformação.”

Cristiana também acredita que o Papa Francisco possa representar uma esperança de avanço, pois, segundo ela, o papa tem propagado uma retomada dos valores evangélicos da inclusão, do diálogo, e de uma cultura do encontro entre diferentes, pregando uma Igreja Católica de portas abertas, que valoriza o referencial do amor acima de tudo para não se reduzir a uma ideologia conservadora e moralizante.

Para entender a visão do Diversidade Católica a respeito de como a homossexualidade é tratada na Bíblia é preciso compreender que, nas palavras do grupo, a homossexualidade não é sequer citada no livro. “A homossexualidade tal como a concebemos hoje, como um aspecto central da identidade da pessoa e crucial na definição de sua inserção na sociedade, é uma invenção social recente, que data do século XIX. A Bíblia nada diz sobre isso – sobre relações amorosas mútuas, sobre projetos de uma vida familiar compartilhada por um casal do mesmo sexo, sobre relações homoeróticas livremente consentidas entre dois adultos livres e sujeitos de seu desejo, nem sobre a transgeneridade”, esclarece Cristiana.
 O que dizer sobre os trechos bíblicos usados por outros religiosos para condenar a homossexualidade? Cristiana explica: “Os trechos que se costuma citar e que supostamente condenariam a homossexualidade não se referem a uma vida afetivo-sexual madura e consciente, mas basicamente a questões rituais, consideradas em um contexto que nada tem em comum com as atuais identidades ‘homossexual’ e ‘transgênero’.”

Enquanto aguardam por mudanças no pensar da Igreja, Cristiana e o Diversidade Católica seguem lutando para defender suas ideias e serem aceitos como são. Um exemplo desta união foi o I Encontro Nacional de Católicos LGBT, que reuniu centenas de pessoas no Auditório Vera Janacópulos, Rio de Janeiro, em 27 de julho deste ano, no qual foi fundada a Rede Nacional de Grupos Católicos LGBT com o intuito de unir o Diversidade Católica e outros grupos católicos LGBT espalhados pelo Brasil.

Essa é uma luta de ideias e de argumentos que no final das contas tem o mesmo objetivo: agradar a Deus e mostrar a ele que se está fazendo o melhor que se pode. Porque, se tem uma coisa que evangélicos e católicos, gays ou heterossexuais, concordam é que somos todos irmãos e filhos de um mesmo Deus. No final das contas, independentemente da interpretação que se faça da Bíblia, para todos os personagens e organizações descritos acima há um consenso: a palavra final será sempre d’Ele.


*Reportagem originalmente feita para a Revista Sagrado, projeto elaborado pela professora Rose Naves para a disciplina Produção de Revista, da Universidade Anhembi Morumbi, em novembro de 2014.